Quantas vezes alguém deu sua risadinha quando saquei meu celular! É que não estou entre os apaixonados por tecnologia e me contento com um modelo “normal”, daqueles que servem pra fazer ligações. Poder mandar torpedos e ter uma máquina fotográfica acoplada já é um luxo que considero pra lá de tecnológico!
Os novos modelos povoam o imaginário popular com uma força que nem concurso de miss, em seus áureos tempos, era capaz: onde já se viu competição com tanto fervor? Pode anotar: a Psicologia, em breve, vai estudar este assunto. Por que será que as pessoas se sentem mais poderosas com um aparelho moderno nas mãos?
Embora não seja louca por gadgets, penso logo na minha coleção de bolsas e dou o braço a torcer que paixão é mesmo coisa séria. Mas veja que, por ano, o mundo engole 50 milhões de toneladas de lixo eletrônico! E olha que, pra defender o planeta, declararam guerra contra as sacolas plásticas!
Enquanto o mundo inteiro quer ver e ser visto com seus gadgets de última geração, a indústria que bate recordes de faturamento se apóia no trabalho quase escravo, segundo o NY Times, que denuncia: há fábricas onde os funcionários ficam disponíveis 24 horas por dia e nem chegam a ir pra casa; dormem em alojamentos. E o salário ó... dezessete dólares por dia.
Mas quem não sabe que o milagre da globalização caminha sobre as pedras da terceirização à base de mão de obra barata?
O trabalho escravo existe no mundo quase que inteiro, e isso não é novidade pra ninguém. Mas o consumismo fora de controle o alimenta: o NOSSO consumismo. É preciso pensar, antes de trocar o celular uma vez por ano, que esta vaidade é a mola que faz girar a engrenagem da escravidão de gente miserável e desesperada, gente sem direitos e explorada em troca de um prato de comida.
O que podemos dizer em defesa desta fome de novidades?
E o que dizer do homem que trabalha oito horas por dia quebrando pedra e carregando sacos de entulho sobre sua coluna torta, ou fechado em um cubículo sem ventilação neste calor de Rio de Janeiro... para ganhar RS$ 622,00 no fim do mês? E não é que até ele foi mordido pela mosca azul do celular? Tem um BlackBerry!
Estamos passando por um momento de crise profunda, que nada tem a ver com economia. É a crise dos valores, dos pesos e das medidas. Foi-se o tempo em que a busca era pelo Santo Graal... a relíquia sagrada agora é o iPad.
Você gosta de celular moderno? O moço da foto também!
Alma Lavada
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Rio: por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento
Esta cidade insegura nunca foi tão insegura quanto hoje; além da violência à qual já nos acostumamos, dos bueiros que explodem e da epidemia de dengue, que já começou, a cidade agora convive com o fantasma do desabamento, que desceu a serra para, quem sabe, chamar atenção ao desespero dos que foram esquecidos em Friburgo.
Fri-bur-go. Será que alguma autoridade se lembra?
Minha amiga, enfermeira de um grande hospital público carioca, conta que sua equipe compra remédios e seringas com dinheiro do próprio bolso, porque tem pena dos pacientes, desesperados de dor. Na hora do banho, dado em uma bacia, é preciso esquentar água na cafeteira elétrica, já que não há água quente no chuveiro dos doentes.
Isso também é cenário de guerra, tanto quanto a montanha de 15 metros de escombros na Cinelândia. E de uma guerra sem fim, com gente morrendo diariamente enquanto o descaso continua.
A cidade de cartão postal é, como diz o velho ditado, “por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento”: linda nas novelas de exportação, linda no filme de desenho animado e nos pontos turísticos explorados pelos estrangeiros, para quem até as favelas parecem aprazíveis e românticas, com suas ruelas cheias de sangue e sofrimento invisíveis. Por dentro, o Rio de Janeiro está num estado de carência, desamparo e irregularidades que os países pobres da Europa, desprovidos do imenso potencial econômico que temos, jamais seriam capazes de sonhar.
Sabe a família infeliz e miserável, que vive na violência e padece todas as faltas possíveis... mas que, diante das visitas, veste sua roupa de domingo, serve uma feijoada completa e faz o teatrinho da harmonia? É o Rio de Janeiro... que está ganhando traje de festa para os eventos esportivos internacionais. Um traje tão caro e luxuoso, que me lembra aquela historinha da infância, "A roupa nova do rei", na qual um monarca vaidoso se deixa enganar por costureiros larápios e desfila pelado diante de todo mundo.
Em breve, os mortos da Avenida Treze de Maio se juntarão a todos os outros, vítimas de violência, deslizamentos, explosões e o que quer que seja, e que foram esquecidos pelas autoridades e pela própria cidade, prestes a tornar-se um imenso salão de Carnaval, com bagunça, sujeira e muito álcool na veia.
No fim das contas, quem, além dos enfermeiros, se importa com o banho quente dos doentes pobres no hospital?
Fri-bur-go. Será que alguma autoridade se lembra?
Minha amiga, enfermeira de um grande hospital público carioca, conta que sua equipe compra remédios e seringas com dinheiro do próprio bolso, porque tem pena dos pacientes, desesperados de dor. Na hora do banho, dado em uma bacia, é preciso esquentar água na cafeteira elétrica, já que não há água quente no chuveiro dos doentes.
Isso também é cenário de guerra, tanto quanto a montanha de 15 metros de escombros na Cinelândia. E de uma guerra sem fim, com gente morrendo diariamente enquanto o descaso continua.
A cidade de cartão postal é, como diz o velho ditado, “por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento”: linda nas novelas de exportação, linda no filme de desenho animado e nos pontos turísticos explorados pelos estrangeiros, para quem até as favelas parecem aprazíveis e românticas, com suas ruelas cheias de sangue e sofrimento invisíveis. Por dentro, o Rio de Janeiro está num estado de carência, desamparo e irregularidades que os países pobres da Europa, desprovidos do imenso potencial econômico que temos, jamais seriam capazes de sonhar.
Sabe a família infeliz e miserável, que vive na violência e padece todas as faltas possíveis... mas que, diante das visitas, veste sua roupa de domingo, serve uma feijoada completa e faz o teatrinho da harmonia? É o Rio de Janeiro... que está ganhando traje de festa para os eventos esportivos internacionais. Um traje tão caro e luxuoso, que me lembra aquela historinha da infância, "A roupa nova do rei", na qual um monarca vaidoso se deixa enganar por costureiros larápios e desfila pelado diante de todo mundo.
Em breve, os mortos da Avenida Treze de Maio se juntarão a todos os outros, vítimas de violência, deslizamentos, explosões e o que quer que seja, e que foram esquecidos pelas autoridades e pela própria cidade, prestes a tornar-se um imenso salão de Carnaval, com bagunça, sujeira e muito álcool na veia.
No fim das contas, quem, além dos enfermeiros, se importa com o banho quente dos doentes pobres no hospital?
A "bela viola", sob a lente encantada de Marcelo Migliaccio
E o "pão bolorento", que ele também fotografou
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Gandhi, Eike e a besta-fera vaidosa
Dias atrás li uma entrevista do Eike Batista e fiquei sabendo que ele quer ser o homem mais rico do mundo. Com todo o respeito aos desejos do Eike, fico me perguntando... pra quê? Ainda mais no caso dele, que já tem US$ 30 bilhões todinhos pra chamar de seus.
Ok, ok, dinheiro é bom e todo mundo gosta, facilita a vida que é uma maravilha, e proporciona coisas deliciosas... não pense que vou começar com aquele papo de que “dinheiro não traz felicidade”... porque não traz mesmo, mas que é melhor ser triste com conforto e com a barriguinha cheia é, não é não?
Meu psicanalista vive me dizendo que a gente deveria aprender a não fazer juízo de valor, e esta, aliás, tem sido uma das minhas ambições... mas acho que o Eike vai chegar lá antes de mim: ele certamente está 30 bilhões de anos-luz à minha frente nesta corrida do ouro, que é a conquista das ambições.
A imprensa avisa que o Brasil está crescendo, o que é ótimo, e que os milionários proliferam, assim como uma “nova” classe média que adora gastar dinheiro e mostrar que tem bala na agulha. Eu acredito: este programa “Mulheres Ricas”, na Bandeirantes, é um sintoma cafonérrimo desta mentalidade, assim como a revista Caras e o Facebook: todo mundo quer mostrar que “pode”!
Esta ambição de “ser alguém” uniformiza as cabeças-pensantes e deixa todos com a mesma cara... todo mundo quer dinheiro, todo mundo quer ser igual e gozar a vida ao máximo... enquanto isso, a besta-fera que habita a alma humana, e se esconde atrás de uma civilidade de mentirinha, engorda cada vez mais, alimentada pela vaidade. Até o dia em que devora o que houver sobrado da pessoa original, que um dia existiu.
Mas não pense que não quero a minha parte, neste Brasil que está crescendo: eu também quero, afinal não fiz voto de pobreza. Só que aprendi, faz tempo, que pra ter paz de espírito há que se ter um limite pra tudo nesta vida, inclusive para os melhores prazeres... ou a felicidade perde seu valor.
O mal está na deturpação da palavra “ambição”, que ganhou tom pejorativo justamente porque a imaginação popular em geral a relaciona, principalmente, à conquista de bens materiais, o que é um equívoco.
Minha mãe, mansa como um cordeiro e sábia como uma raposa, costumava contar aquela história do “ofereça a outra face”, para ilustrar seus ensinamentos a respeito da não-violência. Taí uma ambição que era demais pra mim, que não nasci pra Gandhi e, de quebra, saí igualzinha ao meu pai. Mas veja que o mundo seria mesmo um lugar muito melhor pra gente viver se a grande ambição do homem fosse tornar-se pacífico e verdadeiramente generoso, em vez de rico e reverenciado.
O segredo que demorei pra entender, a respeito de oferecer a outra face, é que não alimentar a guerra já é, por si só, um gesto de paz... e uma ambição pela qual vale lutar, tanto quanto vencer e enjaular o bicho da vaidade... antes que ele acabe com a gente.
Ok, ok, dinheiro é bom e todo mundo gosta, facilita a vida que é uma maravilha, e proporciona coisas deliciosas... não pense que vou começar com aquele papo de que “dinheiro não traz felicidade”... porque não traz mesmo, mas que é melhor ser triste com conforto e com a barriguinha cheia é, não é não?
Meu psicanalista vive me dizendo que a gente deveria aprender a não fazer juízo de valor, e esta, aliás, tem sido uma das minhas ambições... mas acho que o Eike vai chegar lá antes de mim: ele certamente está 30 bilhões de anos-luz à minha frente nesta corrida do ouro, que é a conquista das ambições.
A imprensa avisa que o Brasil está crescendo, o que é ótimo, e que os milionários proliferam, assim como uma “nova” classe média que adora gastar dinheiro e mostrar que tem bala na agulha. Eu acredito: este programa “Mulheres Ricas”, na Bandeirantes, é um sintoma cafonérrimo desta mentalidade, assim como a revista Caras e o Facebook: todo mundo quer mostrar que “pode”!
Esta ambição de “ser alguém” uniformiza as cabeças-pensantes e deixa todos com a mesma cara... todo mundo quer dinheiro, todo mundo quer ser igual e gozar a vida ao máximo... enquanto isso, a besta-fera que habita a alma humana, e se esconde atrás de uma civilidade de mentirinha, engorda cada vez mais, alimentada pela vaidade. Até o dia em que devora o que houver sobrado da pessoa original, que um dia existiu.
Mas não pense que não quero a minha parte, neste Brasil que está crescendo: eu também quero, afinal não fiz voto de pobreza. Só que aprendi, faz tempo, que pra ter paz de espírito há que se ter um limite pra tudo nesta vida, inclusive para os melhores prazeres... ou a felicidade perde seu valor.
O mal está na deturpação da palavra “ambição”, que ganhou tom pejorativo justamente porque a imaginação popular em geral a relaciona, principalmente, à conquista de bens materiais, o que é um equívoco.
Minha mãe, mansa como um cordeiro e sábia como uma raposa, costumava contar aquela história do “ofereça a outra face”, para ilustrar seus ensinamentos a respeito da não-violência. Taí uma ambição que era demais pra mim, que não nasci pra Gandhi e, de quebra, saí igualzinha ao meu pai. Mas veja que o mundo seria mesmo um lugar muito melhor pra gente viver se a grande ambição do homem fosse tornar-se pacífico e verdadeiramente generoso, em vez de rico e reverenciado.
O segredo que demorei pra entender, a respeito de oferecer a outra face, é que não alimentar a guerra já é, por si só, um gesto de paz... e uma ambição pela qual vale lutar, tanto quanto vencer e enjaular o bicho da vaidade... antes que ele acabe com a gente.
Por falar em Gandhi, olha ele aí, no dia do casamento
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
"Alô, posso falar com o Roberto?"
Triiiimmmmm !!!!
-- Alô?
-- Por favor, a Fernanda?
Meu pai achou estranha aquela voz masculina madura, e bancou o detetive:
-- Quem quer falar?
-- É o Fulano de Tal.
Ao ouvir o nome daquele famoso jornalista, titular de antiga coluna social no jornal mais importante do país, meu pai não titubeou e a resposta veio instantânea, antes que ele batesse o telefone na cara do interlocutor, para encerrar de vez aquele trote:
-- Ah é, è? E aqui é o Mustafá das Arábias.
Minha mãe veio correndo:
-- Ela trabalha com ele!!!!!!!!!!!
No dia seguinte, meu chefe veio dizer que na minha casa só tinha doido. E o pior é que eu não pude nem falar nada, porque o Fulano de Tal jamais entenderia que, para o meu pai, aquele universo de coluna social era tão distante do nosso dia a dia, quanto o Mustafá das Arábias que ele disse ser, ao telefone.
Minha carreira de colunista social não foi muito longe, durou poucos meses como “foca”, ou seja, estagiária de jornalismo na equipe daquele grande nome da imprensa brasileira. O chefe, que tinha o hábito de fazer cocô no bidê, dizendo que lá no Primeiro Mundo era assim, e que vaso sanitário é coisa de povo atrasado, chegava sempre muito elegante, de chapéu e roupas de linho, mas seu temperamento autoritário e sem-educação me desestimulou desde o primeiro dia... ainda assim eu tentei, juro que tentei... sabia que aquele emprego poderia me abrir portas para ótimas oportunidades.
-- Liga aí para o Roberto Marinho, que eu preciso falar com ele. Pega o número no caderninho.
O velho jornalista tinha um jeito tão imperativo de falar, que para mim era difícil demais fazer qualquer coisa. Sempre tive problemas com autoridade, quem não sabe? Nervosa, por sua presença, e pelo desejo de fazer tudo direitinho, demorei pra encontrar o número, mas finalmente a secretária atendeu. E eu me apressei:
-- Alô? Por favor, o Roberto?
Eis que Fulano de Tal deu um salto mortal e se aproximou de mim a tempo de desligar o telefone, antes que eu dissesse qualquer outra coisa. Imagina o susto que eu tomei.
-- “Roberto”?! O homem é DOUTOR Roberto Marinho para o mundo inteiro, mas pra você, a foca mais importante do planeta, ele é só o “Roberto” !!! Tá maluca, minha filha? Quer me matar?!
Paralisei. E eu lá sabia que tinha que chamar o homem de “doutor”?!
-- Faz o seguinte: liga aí para o Alessandro Porro. Deixa o “Roberto” pra lá.
-- Alessandro quem?
-- Porro ! Porro mesmo, marido da porra! Liga logo porque eu não tenho o dia inteiro!
Do fundo de toda a minha ignorância, brotou em mim a certeza de que ele estava de sacanagem. Na certa tinha inventado aquele nome só pra me ver procurar o número, nervosamente, no caderninho. Mas não é que achei? O cara existia mesmo, pra minha enorme surpresa. Pelo sim, pelo não, falei insegura com a secretária, diminuindo o tom de voz no decorrer do nome:
-- Por favor, o Alessandro Porro ?
E eis que a jornalista minha colega, que escrevia a coluna praticamente inteira, saiu de férias, e um substituto “experiente” foi posto em seu lugar. Depois de quatro semanas fazendo tudo sozinha, porque o tal substituto fingia que trabalhava e jogava tudo em cima da “foca”, metade de mim era puro orgulho, e a outra metade estava à beira da exaustão.
Eu tinha meia-dúzia de contatos para os quais ligava, diariamente: foi assim, por exemplo, que conheci o Ivo Pintaguy, o Mariozinho Oliveira e o Fernando Sabino, todos gente finíssima. Lembro de um cientista que gostava de tirar onda com a minha credulidade:
-- Fernanda, publica a nova pesquisa que o Instituto Oswaldo Cruz está fazendo: as correntes marítimas são influenciadas pelo movimento dos bigodes dos camarões!
-- Jura?! Mas que coisa interessante! Incrível! O Fulano de Tal vai adoraaaaar !!!
-- Fernanda, minha fofa, o Fulano de Tal vai é te demitir. Não tá vendo que é piada?!
O fato é que, apesar de toda a minha dedicação, reconhecimento do chefe, que era bom, nada: ele continuava me tratando com a mesma autoridade exagerada de sempre, o que, para mim, foi ficando cada vez mais insuportável.
A coisa chegou ao clímax no dia em que saí do banheiro enxugando as mãos com a toalhinha de rosto que ficava pendurada ao lado da pia, e minha colega, que já havia voltado das férias, se surpreendeu:
-- Fernanda, esqueci de dizer pra não enxugar as mãos com esta toalha, que o Fulano de Tal usa como papel higiênico!
E foi assim que a minha carreira de colunista social escorreu ralo abaixo. Saí pela rua desempregada, mas leve. E aprendi que, na vida, há sempre um limite para o sacrifício.
-- Alô?
-- Por favor, a Fernanda?
Meu pai achou estranha aquela voz masculina madura, e bancou o detetive:
-- Quem quer falar?
-- É o Fulano de Tal.
Ao ouvir o nome daquele famoso jornalista, titular de antiga coluna social no jornal mais importante do país, meu pai não titubeou e a resposta veio instantânea, antes que ele batesse o telefone na cara do interlocutor, para encerrar de vez aquele trote:
-- Ah é, è? E aqui é o Mustafá das Arábias.
Minha mãe veio correndo:
-- Ela trabalha com ele!!!!!!!!!!!
No dia seguinte, meu chefe veio dizer que na minha casa só tinha doido. E o pior é que eu não pude nem falar nada, porque o Fulano de Tal jamais entenderia que, para o meu pai, aquele universo de coluna social era tão distante do nosso dia a dia, quanto o Mustafá das Arábias que ele disse ser, ao telefone.
Minha carreira de colunista social não foi muito longe, durou poucos meses como “foca”, ou seja, estagiária de jornalismo na equipe daquele grande nome da imprensa brasileira. O chefe, que tinha o hábito de fazer cocô no bidê, dizendo que lá no Primeiro Mundo era assim, e que vaso sanitário é coisa de povo atrasado, chegava sempre muito elegante, de chapéu e roupas de linho, mas seu temperamento autoritário e sem-educação me desestimulou desde o primeiro dia... ainda assim eu tentei, juro que tentei... sabia que aquele emprego poderia me abrir portas para ótimas oportunidades.
-- Liga aí para o Roberto Marinho, que eu preciso falar com ele. Pega o número no caderninho.
O velho jornalista tinha um jeito tão imperativo de falar, que para mim era difícil demais fazer qualquer coisa. Sempre tive problemas com autoridade, quem não sabe? Nervosa, por sua presença, e pelo desejo de fazer tudo direitinho, demorei pra encontrar o número, mas finalmente a secretária atendeu. E eu me apressei:
-- Alô? Por favor, o Roberto?
Eis que Fulano de Tal deu um salto mortal e se aproximou de mim a tempo de desligar o telefone, antes que eu dissesse qualquer outra coisa. Imagina o susto que eu tomei.
-- “Roberto”?! O homem é DOUTOR Roberto Marinho para o mundo inteiro, mas pra você, a foca mais importante do planeta, ele é só o “Roberto” !!! Tá maluca, minha filha? Quer me matar?!
Paralisei. E eu lá sabia que tinha que chamar o homem de “doutor”?!
-- Faz o seguinte: liga aí para o Alessandro Porro. Deixa o “Roberto” pra lá.
-- Alessandro quem?
-- Porro ! Porro mesmo, marido da porra! Liga logo porque eu não tenho o dia inteiro!
Do fundo de toda a minha ignorância, brotou em mim a certeza de que ele estava de sacanagem. Na certa tinha inventado aquele nome só pra me ver procurar o número, nervosamente, no caderninho. Mas não é que achei? O cara existia mesmo, pra minha enorme surpresa. Pelo sim, pelo não, falei insegura com a secretária, diminuindo o tom de voz no decorrer do nome:
-- Por favor, o Alessandro Porro ?
E eis que a jornalista minha colega, que escrevia a coluna praticamente inteira, saiu de férias, e um substituto “experiente” foi posto em seu lugar. Depois de quatro semanas fazendo tudo sozinha, porque o tal substituto fingia que trabalhava e jogava tudo em cima da “foca”, metade de mim era puro orgulho, e a outra metade estava à beira da exaustão.
Eu tinha meia-dúzia de contatos para os quais ligava, diariamente: foi assim, por exemplo, que conheci o Ivo Pintaguy, o Mariozinho Oliveira e o Fernando Sabino, todos gente finíssima. Lembro de um cientista que gostava de tirar onda com a minha credulidade:
-- Fernanda, publica a nova pesquisa que o Instituto Oswaldo Cruz está fazendo: as correntes marítimas são influenciadas pelo movimento dos bigodes dos camarões!
-- Jura?! Mas que coisa interessante! Incrível! O Fulano de Tal vai adoraaaaar !!!
-- Fernanda, minha fofa, o Fulano de Tal vai é te demitir. Não tá vendo que é piada?!
O fato é que, apesar de toda a minha dedicação, reconhecimento do chefe, que era bom, nada: ele continuava me tratando com a mesma autoridade exagerada de sempre, o que, para mim, foi ficando cada vez mais insuportável.
A coisa chegou ao clímax no dia em que saí do banheiro enxugando as mãos com a toalhinha de rosto que ficava pendurada ao lado da pia, e minha colega, que já havia voltado das férias, se surpreendeu:
-- Fernanda, esqueci de dizer pra não enxugar as mãos com esta toalha, que o Fulano de Tal usa como papel higiênico!
E foi assim que a minha carreira de colunista social escorreu ralo abaixo. Saí pela rua desempregada, mas leve. E aprendi que, na vida, há sempre um limite para o sacrifício.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Barbie, cai na real !!!
Enquanto a moça que sofreu abuso em cadeia nacional, na cama do mais famoso reality do Brasil, joga uma cortina de fumaça sobre o ocorrido e até o momento não se queixa, as coisas seguem horrorosas no universo feminino... na Somália, por exemplo, as mulheres caem nas garras de milicianos e são cada vez mais estupradas, além de submetidas a casamentos forçados ainda na puberdade, e à tal da mutilação genital, prática importante do tradicionalismo islâmico que, naquele país, atinge quase 100% delas.
Veja a matéria no NY Times.
No Irã, os aiatolás decidiram que as meninas não podem mais brincar com a Barbie, e a boneca entrou para a lista negra. Brincar, agora, só com a Sara, que usa roupas "apropriadas" e cabelos cobertos. Pena que as crianças, inocentes de tudo, consideram a alternativa "gorda" e "mal-vestida"... e continuam sonhando com a liberdade para brincar em paz.
Enquanto as mulheres padecem tanta falta de liberdade e direitos em lugares como Irã e Somália, aqui no Ocidente passamos por um momento de crise do feminino, e fico pensando nos rumos da situação. Não são poucas as moças, e até as meninas, que engordam um “movimento” de retrocesso, a partir do qual a mulher volta a ser vista como objeto e deixa de ser um ser pensante, livre e merecedor de respeito. Uma campanha que a TV promove, aliás, inclusive ao banalizar o abuso cometido no tal reality.
Desde muito cedo, esta tal “corrente” acredita que a bunda é seu melhor e mais importante atributo para alcançar o sonho de um dia poder ser bonita e glamourosa como a Barbie. E se elas não aprenderam a pensar e não enxergam valor em sua inteligência e capacidade, não conseguem imaginar um futuro que não tenha um "bom" casamento, mesmo que seja por conveniência. Não entendem que, assim, estão escolhendo uma vida de opressão.
-- Pensar pra quê? Pra ficar triste? Melhor não pensar.
A mulher que me disse isso faz parte do grupo das tantas meninas que crescem sem autoestima, educação e objetivos de autonomia e liberdade... tudo isso, coisa que a gente aprende em casa, mas que anda em falta nas melhores famílias. Por uma inversão total de valores, ela conseguiu o sonho dourado: casou com um médico, tem duas filhas, não precisa trabalhar e desfruta de um vidão confortável. Não vai a pé nem à padaria, porque tem carrão, e está sempre emperequetada, como prega a moda que segue. Mas feliz, que é bom... neca de pitibiriba. E respeito do marido, será que tem?
O sonho de ser uma dondoca cheia de charme pode custar muito caro, e o pagamento é feito em duríssimas prestações. É preciso muito cuidado para não fazer do casamento uma arena para a dominação; o leme do relacionamento obrigatoriamente tem que ser o amor... caso contrário, a convivência se transforma num balcão de compra e venda, onde a autonomia da mulher deixa de existir. Isso me faz lembrar da moça de programa que entrevistei uma vez, para a revista "Nova":
-- Como você aguenta transar com um homem que você nunca viu, e só por dinheiro?
-- Fecho os olhos e penso no sapato que vou comprar no dia seguinte, com o dinheiro que ele vai me dar.
Está feita a confusão que nem Freud dá jeito: esta mesma moça me disse que se sentia muito livre e dona do seu nariz, afinal de contas ela tinha escohido ser prostituta. Como se vê, a fantasia permite tudo, até mesmo enxergar liberdade na submissão.
Veja a matéria no NY Times.
No Irã, os aiatolás decidiram que as meninas não podem mais brincar com a Barbie, e a boneca entrou para a lista negra. Brincar, agora, só com a Sara, que usa roupas "apropriadas" e cabelos cobertos. Pena que as crianças, inocentes de tudo, consideram a alternativa "gorda" e "mal-vestida"... e continuam sonhando com a liberdade para brincar em paz.
Enquanto as mulheres padecem tanta falta de liberdade e direitos em lugares como Irã e Somália, aqui no Ocidente passamos por um momento de crise do feminino, e fico pensando nos rumos da situação. Não são poucas as moças, e até as meninas, que engordam um “movimento” de retrocesso, a partir do qual a mulher volta a ser vista como objeto e deixa de ser um ser pensante, livre e merecedor de respeito. Uma campanha que a TV promove, aliás, inclusive ao banalizar o abuso cometido no tal reality.
Desde muito cedo, esta tal “corrente” acredita que a bunda é seu melhor e mais importante atributo para alcançar o sonho de um dia poder ser bonita e glamourosa como a Barbie. E se elas não aprenderam a pensar e não enxergam valor em sua inteligência e capacidade, não conseguem imaginar um futuro que não tenha um "bom" casamento, mesmo que seja por conveniência. Não entendem que, assim, estão escolhendo uma vida de opressão.
-- Pensar pra quê? Pra ficar triste? Melhor não pensar.
A mulher que me disse isso faz parte do grupo das tantas meninas que crescem sem autoestima, educação e objetivos de autonomia e liberdade... tudo isso, coisa que a gente aprende em casa, mas que anda em falta nas melhores famílias. Por uma inversão total de valores, ela conseguiu o sonho dourado: casou com um médico, tem duas filhas, não precisa trabalhar e desfruta de um vidão confortável. Não vai a pé nem à padaria, porque tem carrão, e está sempre emperequetada, como prega a moda que segue. Mas feliz, que é bom... neca de pitibiriba. E respeito do marido, será que tem?
O sonho de ser uma dondoca cheia de charme pode custar muito caro, e o pagamento é feito em duríssimas prestações. É preciso muito cuidado para não fazer do casamento uma arena para a dominação; o leme do relacionamento obrigatoriamente tem que ser o amor... caso contrário, a convivência se transforma num balcão de compra e venda, onde a autonomia da mulher deixa de existir. Isso me faz lembrar da moça de programa que entrevistei uma vez, para a revista "Nova":
-- Como você aguenta transar com um homem que você nunca viu, e só por dinheiro?
-- Fecho os olhos e penso no sapato que vou comprar no dia seguinte, com o dinheiro que ele vai me dar.
Está feita a confusão que nem Freud dá jeito: esta mesma moça me disse que se sentia muito livre e dona do seu nariz, afinal de contas ela tinha escohido ser prostituta. Como se vê, a fantasia permite tudo, até mesmo enxergar liberdade na submissão.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Cavalo de guerra: o que é do homem, o bicho não come
Fui ver o filme “Cavalo de Guerra”, do Spielberg, justamente porque a crítica do jornal e da revista semanal que leio caíram de pau, dizendo que era sentimental demais. Como não confio na opinião dos críticos e sou mesmo uma sentimental, lá fui eu, com meu marido e meu saco de pipocas.
Adorei o filme desde o primeiro momento e não só por causa da luz, do figurino, dos personagens verossímeis e do olhar do Spielberg, que realmente faz toda a diferença, e por isso é que ele é quem é. Certa vez, um idiota com quem convivi por alguns anos parafraseou o cineasta Anselmo Duarte e disse o que salvou-o de ser, no meu entender, um idiota completo:
-- O crítico é aquele cara que queria ter feito, mas, como não fez, aponta os defeitos no que os outros fizeram.
Gostei. E é por isso mesmo que escolho o que vou ver com base na minha intuição. Pode ser coincidência, mas, em geral, quando a turma “especializada” diz que o filme é ruim, eu gosto. Será que é porque sou do contra?
Mas o caso aqui não é este, e sim o que o tal cavalo de guerra me fez pensar. O bicho é lindo, forte, cheio de opinião e tinhoso. Mas, mais ainda que isso, é um lutador e sobrevivente milagroso, que pelos mistérios da vida sempre encontra quem por ele se apaixone, e este simples detalhe lança os desígnios de sua existência. O que este cavalo tinha de diferente? Que força vital o impulsionava, de volta para casa, em meio ao caos e a desesperança total de uma guerra, na qual outros milhares de cavalos sucumbiram?
O filme é um conto de fadas, sim. Mas “Cinderela” também tem seu charme, e é preciso lembrar que, para nós, os espectadores, a alegria de viver também provêm destes roteiros rocambolescos, nos quais heróis e heroínas vencem batalhas quase perdidas... porque na vida real muitas vezes esperamos desesperadamente por um final feliz. E, graças aos céus, eles existem, sim.
O filme pode até viajar na maionese, mas nos mostra o quanto os soldados são gente, antes de serem soldados; e que a guerra não é capaz de acabar com a centelha de amor e humanidade que trazemos em nossa alma. A cena em que um inglês e um alemão param a batalha para socorrer o cavalo que está morrendo, pode, sim, ser chamada de sentimentalóide, mas está mais próxima do ser humano que gostaríamos de ser, do que os soldados americanos do vídeo que vazou esta semana na Internet, e que mostra a tropa urinando sobre cadáveres talibãs.
E tem mais: dentro de todo o romantismo do filme, ele também trata de uma outra verdade universal, na qual eu, que não acredito em destino, creio completamente. Como dizem os mineiros:
-- O que é do homem, o bicho não come.
Você pode até não acreditar, mas já tive provas deste dito popular em histórias como a da minha prima Iracema, que aos cinqüenta e tantos anos, preparando-se para o casamento com o amor de juventude, com quem não se casou por proibição da mãe, ficou viúva antes da cerimônia, porque o noivo não suportou a emoção. Não era pra ser, e não foi.
Histórias como a da Iracema, na vida real, e a do cavalo de guerra, no filme, me fazem crer na força que certos acontecimentos fazem para acontecer, ou não acontecer... seja para a nossa alegria ou a nossa dor. Uma grande questão da vida é saber reconhecê-los e aceitá-los, para que a gente possa viver em paz.
Adorei o filme desde o primeiro momento e não só por causa da luz, do figurino, dos personagens verossímeis e do olhar do Spielberg, que realmente faz toda a diferença, e por isso é que ele é quem é. Certa vez, um idiota com quem convivi por alguns anos parafraseou o cineasta Anselmo Duarte e disse o que salvou-o de ser, no meu entender, um idiota completo:
-- O crítico é aquele cara que queria ter feito, mas, como não fez, aponta os defeitos no que os outros fizeram.
Gostei. E é por isso mesmo que escolho o que vou ver com base na minha intuição. Pode ser coincidência, mas, em geral, quando a turma “especializada” diz que o filme é ruim, eu gosto. Será que é porque sou do contra?
Mas o caso aqui não é este, e sim o que o tal cavalo de guerra me fez pensar. O bicho é lindo, forte, cheio de opinião e tinhoso. Mas, mais ainda que isso, é um lutador e sobrevivente milagroso, que pelos mistérios da vida sempre encontra quem por ele se apaixone, e este simples detalhe lança os desígnios de sua existência. O que este cavalo tinha de diferente? Que força vital o impulsionava, de volta para casa, em meio ao caos e a desesperança total de uma guerra, na qual outros milhares de cavalos sucumbiram?
O filme é um conto de fadas, sim. Mas “Cinderela” também tem seu charme, e é preciso lembrar que, para nós, os espectadores, a alegria de viver também provêm destes roteiros rocambolescos, nos quais heróis e heroínas vencem batalhas quase perdidas... porque na vida real muitas vezes esperamos desesperadamente por um final feliz. E, graças aos céus, eles existem, sim.
O filme pode até viajar na maionese, mas nos mostra o quanto os soldados são gente, antes de serem soldados; e que a guerra não é capaz de acabar com a centelha de amor e humanidade que trazemos em nossa alma. A cena em que um inglês e um alemão param a batalha para socorrer o cavalo que está morrendo, pode, sim, ser chamada de sentimentalóide, mas está mais próxima do ser humano que gostaríamos de ser, do que os soldados americanos do vídeo que vazou esta semana na Internet, e que mostra a tropa urinando sobre cadáveres talibãs.
E tem mais: dentro de todo o romantismo do filme, ele também trata de uma outra verdade universal, na qual eu, que não acredito em destino, creio completamente. Como dizem os mineiros:
-- O que é do homem, o bicho não come.
Você pode até não acreditar, mas já tive provas deste dito popular em histórias como a da minha prima Iracema, que aos cinqüenta e tantos anos, preparando-se para o casamento com o amor de juventude, com quem não se casou por proibição da mãe, ficou viúva antes da cerimônia, porque o noivo não suportou a emoção. Não era pra ser, e não foi.
Histórias como a da Iracema, na vida real, e a do cavalo de guerra, no filme, me fazem crer na força que certos acontecimentos fazem para acontecer, ou não acontecer... seja para a nossa alegria ou a nossa dor. Uma grande questão da vida é saber reconhecê-los e aceitá-los, para que a gente possa viver em paz.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
O mundo, esta senzala azul
Para nós, que vivemos em um país democrático, chega a ser surreal que ainda hoje aconteçam histórias como a do cineasta iraniano Jafar Panahi, condenado a seis anos de prisão, somados a vinte anos proibido de filmar, sob a acusação de criar propaganda contra o regime de seu país.
Enterrado vivo em seu apartamento, Panahi é a prova de que não só as mulheres são vítimas de governos autoritários atualmente, neste mundo que a nós, ocidentais, parece tão distante daqueles dos tempos de Sócrates, morto pela “democracia” grega, cerca de 400 anos antes de Cristo, e de Galileu, condenado pela Inquisição, 400 anos atrás, a desdizer-se e a viver trancafiado em casa até a morte.
Aqui, mais perto de nós, a jornalista cubana Yoani Sánchez, que com seu blog Generación Y tornou-se uma das 100 pessoas mais influentes do planeta, segundo a Times, também sofre as penalidades impostas por seu governo, por ter a audácia de expressar opiniões divergentes à política de seu país.
Panahi e Yoani são símbolos de que o nosso mundo ainda está muito longe de ser civilizado, e me fazem pensar que estamos em uma grande senzala, porque a opressão está por toda parte, como uma pandemia invisível e de difícil cura.
Mesmo nos países democráticos, todo cuidado é pouco... estamos sempre pisando em ovos, já que as diferenças sociais são verdadeiras focinheiras a calar os mais pobres, tanto quanto os cidadãos comuns que não dispõem de uma farda ou de um cargo importante. É a mesma focinheira, aliás, usada pela “segunda classe” da sociedade: crianças, mulheres, negros, nordestinos e velhos, todos já adestrados pelo sistema.
Ontem recebi um vídeo anônimo que parecia ter saído do bunker do Terceiro Reich, no qual um rapaz esbraveja contra o kit gay, dizendo que o Congresso “perdeu o senso da moralidade e faz a cabeça da criançada, colocando o absurdo como normal”. A amiga que me enviou o dito vídeo, boa pessoa e incapaz de desrespeitar as diferenças, incrivelmente se deixou levar pelo discurso do locutor que não tem coragem de se identificar. É aí que mora o perigo, quando gente de bem não distingue o joio do trigo na fala inflamada dos carismáticos. Alguém aí já viu como o Hitler falava bem?
É também aqui na democracia que, não raro, nos vemos aprisionados a “amigos” e “parceiros” que bem poderiam ser generais em campos de batalha, e que, agressivos ou ardilosos, nos envolvem em suas teias de dominação. E o que dizer do cárcere privado das famílias neuróticas, onde pai ou mãe cerceiam as escolhas dos filhos, incutindo neles a culpa pelo desejo de fazerem suas próprias escolhas e viverem sua própria vida? E os filhos chantagistas que "vendem" afeto e atenção aos pais, conseguindo, desta maneira, bancar os ditadores? E os chefes inseguros, que tocam o terror em suas empresas, liderando os funcionários com mão-de-ferro e autonomia zero?
Quantas mulheres já vi, sendo massacradas por amigos, por terem tido a coragem de dizer que não, não desejam a maternidade, acham criança um saco e preferem viver sem filhos? São vistas como gente ruim, sob a lente das vaquinhas de presépio.
“Toda unanimidade é burra”, bem dizia Nelson Rodrigues, mais um gênio apunhalado pela ignorância da opinião pública. A sorte do mundo é que estes homens e mulheres, cuja opinião não se curva ao medo, carregam a humanidade rumo à luz. Não fossem eles, estaríamos até hoje vivendo em bando nas cavernas, comendo carne crua e acreditando que a Terra é, sim, o centro do universo.
Felicidade é viver sem precisar pisar em ovos !
Enterrado vivo em seu apartamento, Panahi é a prova de que não só as mulheres são vítimas de governos autoritários atualmente, neste mundo que a nós, ocidentais, parece tão distante daqueles dos tempos de Sócrates, morto pela “democracia” grega, cerca de 400 anos antes de Cristo, e de Galileu, condenado pela Inquisição, 400 anos atrás, a desdizer-se e a viver trancafiado em casa até a morte.
Aqui, mais perto de nós, a jornalista cubana Yoani Sánchez, que com seu blog Generación Y tornou-se uma das 100 pessoas mais influentes do planeta, segundo a Times, também sofre as penalidades impostas por seu governo, por ter a audácia de expressar opiniões divergentes à política de seu país.
Panahi e Yoani são símbolos de que o nosso mundo ainda está muito longe de ser civilizado, e me fazem pensar que estamos em uma grande senzala, porque a opressão está por toda parte, como uma pandemia invisível e de difícil cura.
Mesmo nos países democráticos, todo cuidado é pouco... estamos sempre pisando em ovos, já que as diferenças sociais são verdadeiras focinheiras a calar os mais pobres, tanto quanto os cidadãos comuns que não dispõem de uma farda ou de um cargo importante. É a mesma focinheira, aliás, usada pela “segunda classe” da sociedade: crianças, mulheres, negros, nordestinos e velhos, todos já adestrados pelo sistema.
Ontem recebi um vídeo anônimo que parecia ter saído do bunker do Terceiro Reich, no qual um rapaz esbraveja contra o kit gay, dizendo que o Congresso “perdeu o senso da moralidade e faz a cabeça da criançada, colocando o absurdo como normal”. A amiga que me enviou o dito vídeo, boa pessoa e incapaz de desrespeitar as diferenças, incrivelmente se deixou levar pelo discurso do locutor que não tem coragem de se identificar. É aí que mora o perigo, quando gente de bem não distingue o joio do trigo na fala inflamada dos carismáticos. Alguém aí já viu como o Hitler falava bem?
É também aqui na democracia que, não raro, nos vemos aprisionados a “amigos” e “parceiros” que bem poderiam ser generais em campos de batalha, e que, agressivos ou ardilosos, nos envolvem em suas teias de dominação. E o que dizer do cárcere privado das famílias neuróticas, onde pai ou mãe cerceiam as escolhas dos filhos, incutindo neles a culpa pelo desejo de fazerem suas próprias escolhas e viverem sua própria vida? E os filhos chantagistas que "vendem" afeto e atenção aos pais, conseguindo, desta maneira, bancar os ditadores? E os chefes inseguros, que tocam o terror em suas empresas, liderando os funcionários com mão-de-ferro e autonomia zero?
Quantas mulheres já vi, sendo massacradas por amigos, por terem tido a coragem de dizer que não, não desejam a maternidade, acham criança um saco e preferem viver sem filhos? São vistas como gente ruim, sob a lente das vaquinhas de presépio.
“Toda unanimidade é burra”, bem dizia Nelson Rodrigues, mais um gênio apunhalado pela ignorância da opinião pública. A sorte do mundo é que estes homens e mulheres, cuja opinião não se curva ao medo, carregam a humanidade rumo à luz. Não fossem eles, estaríamos até hoje vivendo em bando nas cavernas, comendo carne crua e acreditando que a Terra é, sim, o centro do universo.
Felicidade é viver sem precisar pisar em ovos !
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Quando o clitóris é uma pedra no caminho
Alguém viu o filme “Flor do Deserto”? Eu vi no fim de semana. É a história de Warris Dirie, modelo que tornou-se símbolo mundial da luta contra a mutilação genital feminina, que ainda hoje é comum na África e na Ásia e, também, entre os imigrantes que vivem na Europa, na América e na Austrália. Segundo a ONU, cerca de oito mil meninas sofrem esta violência todos os dias.
Alguém pode imaginar o que significa esta prática? As próprias mães levam suas filhas, de quatro ou cinco anos, para serem castradas, algumas vezes por médicos e enfermeiras, outras por senhoras da comunidade, extremamente respeitadas por terem o ofício de cortar o clitóris e toda a vulva das “pacientes”, costurando tudo depois. Não há anestesia nem higiene, e as “cirurgias” são feitas com facas, giletes, canivetes ou o que houver à mão no momento.
Muitas meninas morrem, e, nos últimos anos, a prática vem sendo aplicada a bebês. Na noite de núpcias, quando as noivas têm em torno de 12 anos, o marido faz um corte na cicatriz, antes de consumar o casamento, para ter certeza de que sua esposa foi “cortada”, como prega o costume, e portanto é uma mulher casta e respeitável. Mas que costume é este, que não consta em nenhum livro sagrado? É a praxe de indivíduos para quem o prazer de viver é a opressão; a tradição de homens que garantem a fidelidade de suas mulheres através da privação máxima, que é a privação do próprio corpo. Para eles, o clitóris é uma pedra no meio do caminho, um obstáculo à supremacia do seu próprio egoísmo e tirania.
Warris teve ao menos a sorte de conseguir fugir pelo deserto na noite anterior ao casamento, e sua mãe, que a viu fugir, apanhou durante anos do marido por causa disso. A menina conseguiu ser enviada para Londres pela avó, onde foi explorada como uma empregada doméstica sem nenhum direito. Não fosse pelas guinadas excepcionais da vida, não teria se tornado modelo famosa e, a partir daí, embaixadora da ONU.
Fico muito feliz por Warris ter escapado e ter se transformado nesta força-motriz itinerante, criadora de uma fundação internacional e premiada por chefes de estado como Mikhail Gorbachev e Nicolas Sarkozy. E penso em todas as outras meninas que ainda estão sob as garras de um costume absurdo, sem defesa em países onde a civilidade é artigo raro e, no caso das mulheres, inexistente.
E alguém me dirá que também existe violência contra a mulher aqui no Brasil. A questão é que aqui, a fuga é mais fácil, e conheço mulheres de diferentes classes sociais que fugiram mesmo, depois de apanhar e quase serem mortas por maridos covardões. Na África e na Ásia, o estupro é tão comum para os homens quanto tomar um copo d’água, e bater em mulher faz parte da tradição. Enquanto isso, elas choram e se desesperam, porque é só isso que podem fazer.
Conheça a Fundação Flor do Deserto. Clique aqui.
Veja o trailer do filme:
Alguém pode imaginar o que significa esta prática? As próprias mães levam suas filhas, de quatro ou cinco anos, para serem castradas, algumas vezes por médicos e enfermeiras, outras por senhoras da comunidade, extremamente respeitadas por terem o ofício de cortar o clitóris e toda a vulva das “pacientes”, costurando tudo depois. Não há anestesia nem higiene, e as “cirurgias” são feitas com facas, giletes, canivetes ou o que houver à mão no momento.
Muitas meninas morrem, e, nos últimos anos, a prática vem sendo aplicada a bebês. Na noite de núpcias, quando as noivas têm em torno de 12 anos, o marido faz um corte na cicatriz, antes de consumar o casamento, para ter certeza de que sua esposa foi “cortada”, como prega o costume, e portanto é uma mulher casta e respeitável. Mas que costume é este, que não consta em nenhum livro sagrado? É a praxe de indivíduos para quem o prazer de viver é a opressão; a tradição de homens que garantem a fidelidade de suas mulheres através da privação máxima, que é a privação do próprio corpo. Para eles, o clitóris é uma pedra no meio do caminho, um obstáculo à supremacia do seu próprio egoísmo e tirania.
Warris teve ao menos a sorte de conseguir fugir pelo deserto na noite anterior ao casamento, e sua mãe, que a viu fugir, apanhou durante anos do marido por causa disso. A menina conseguiu ser enviada para Londres pela avó, onde foi explorada como uma empregada doméstica sem nenhum direito. Não fosse pelas guinadas excepcionais da vida, não teria se tornado modelo famosa e, a partir daí, embaixadora da ONU.
Fico muito feliz por Warris ter escapado e ter se transformado nesta força-motriz itinerante, criadora de uma fundação internacional e premiada por chefes de estado como Mikhail Gorbachev e Nicolas Sarkozy. E penso em todas as outras meninas que ainda estão sob as garras de um costume absurdo, sem defesa em países onde a civilidade é artigo raro e, no caso das mulheres, inexistente.
E alguém me dirá que também existe violência contra a mulher aqui no Brasil. A questão é que aqui, a fuga é mais fácil, e conheço mulheres de diferentes classes sociais que fugiram mesmo, depois de apanhar e quase serem mortas por maridos covardões. Na África e na Ásia, o estupro é tão comum para os homens quanto tomar um copo d’água, e bater em mulher faz parte da tradição. Enquanto isso, elas choram e se desesperam, porque é só isso que podem fazer.
Conheça a Fundação Flor do Deserto. Clique aqui.
Veja o trailer do filme:
Abaixo, seguem alguns textos que resgatei do antigo blog, no Jornal do Brasil, sobre a situação de risco enfrentada por mulheres em sociedades machistas.
Pena que não exista delegacia da mulher no Irã e no Afeganistão
(Publicado no Jornal do Brasil em 12/08/2010)
A notícia de que novas unidades da Delegacia da Mulher serão implantadas no estado do Rio de Janeiro me fez pensar em Zargoona, uma viúva professora de física que vivia em Cabul e teve sua vida destruída pelos Talibãs, que a proibíram de trabalhar. Eu a conheci no livro “Mulheres de Cabul”, da inglesa Harriet Logan.
No instante seguinte, meu pensamento voou ao Irã, onde Sakineh Mohammadi Ashtiani, de 43 anos, já foi torturada, segundo diz seu advogado, e agora espera pela sentença que irá condená-la à morte, por, supostamente, ter cometido adultério e assassinado o marido.
O infortúnio de minhas amigas espirituais __já que nunca as conheci, mas com elas me solidarizei__ faz com que eu dê graças aos Céus por ter nascido no Brasil. Logo aqui, onde o machismo ainda impera em muitos lares e o chefe da Nação dá ao mundo uma mostra de como muitos brasileiros enxergam a mulher.
Considerado “humano e emotivo” pelos iranianos, e representante de um povo com fama de brincalhão __mas na verdade chegado ao humor negro e capaz de fazer piadas a respeito de crimes bárbaros__ Lula fez chacota da tortura e do assassinato que aguardam Sakineh, oficializados por um governo que desconhece a palavra "democracia" e pratica o apedrejamento.
E é bom mesmo que novas unidades da Delegacia da Mulher sejam criadas, porque no país democrata em que vivemos, houve aumento de 112% no número de denúncias ao “disque 180” (Central de Atendimento à Mulher) nos primeiros seis meses deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado. Os dados são da Secretaria de Políticas para as Mulheres, vinculada à nossa Presidência da República.
Foram mais de 343 mil atendimentos neste período, contra pouco menos de 162 mil no ano passado. Os crimes de “ameaça” e “lesão corporal” somam mais ou menos 70% dos registros, e partem da boca ou do braço do próprio companheiro da vítima, que instaura em casa a lei da violência física, psicológica, moral, patrimonial, sexual e até mesmo cárcere privado e tráfico.
Enquanto isso, a organização não-governamental Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos (Cohre) revelou, mês passado, uma pesquisa que afirma que uma mulher é atacada a cada 15 segundos no Brasil. Haja delegacia!
Conheci mulheres que fugiram de maridos tiranos __uma delas sob ameaça de ser morta quando ele resolvesse que havia chegado a hora, e outra que só não morreu porque correu mais rápido que seu algoz, que seguia atrás com uma garrafa quebrada na mão. E já vi também algumas que apanharam durante anos, e um dia deram um basta na Delegacia de Mulheres, com hematomas no corpo e no coração. Cheguei a ir com uma delas ao Instituto Médico Legal para o exame de corpo de delito, e ajudei outra a reconstruir um lar com seus filhos. Percebi que o mais difícil, no entanto, é livrar-se da violência psicológica, aquela que amputa braços e pernas da auto-estima e nos torna incapazes de qualquer atitude de auto-preservação.
Mas para quem vive num país livre, há sempre a esperança da fuga e de um futuro melhor, inclusive através das urnas: penso em Zargoona e em Sakineh, minhas amigas espirituais, e lamento que estas possibilidades não existam para elas.
O desespero de Zargonna, fotografado por Harriet Logan
A notícia de que novas unidades da Delegacia da Mulher serão implantadas no estado do Rio de Janeiro me fez pensar em Zargoona, uma viúva professora de física que vivia em Cabul e teve sua vida destruída pelos Talibãs, que a proibíram de trabalhar. Eu a conheci no livro “Mulheres de Cabul”, da inglesa Harriet Logan.
No instante seguinte, meu pensamento voou ao Irã, onde Sakineh Mohammadi Ashtiani, de 43 anos, já foi torturada, segundo diz seu advogado, e agora espera pela sentença que irá condená-la à morte, por, supostamente, ter cometido adultério e assassinado o marido.
O infortúnio de minhas amigas espirituais __já que nunca as conheci, mas com elas me solidarizei__ faz com que eu dê graças aos Céus por ter nascido no Brasil. Logo aqui, onde o machismo ainda impera em muitos lares e o chefe da Nação dá ao mundo uma mostra de como muitos brasileiros enxergam a mulher.
Considerado “humano e emotivo” pelos iranianos, e representante de um povo com fama de brincalhão __mas na verdade chegado ao humor negro e capaz de fazer piadas a respeito de crimes bárbaros__ Lula fez chacota da tortura e do assassinato que aguardam Sakineh, oficializados por um governo que desconhece a palavra "democracia" e pratica o apedrejamento.
E é bom mesmo que novas unidades da Delegacia da Mulher sejam criadas, porque no país democrata em que vivemos, houve aumento de 112% no número de denúncias ao “disque 180” (Central de Atendimento à Mulher) nos primeiros seis meses deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado. Os dados são da Secretaria de Políticas para as Mulheres, vinculada à nossa Presidência da República.
Foram mais de 343 mil atendimentos neste período, contra pouco menos de 162 mil no ano passado. Os crimes de “ameaça” e “lesão corporal” somam mais ou menos 70% dos registros, e partem da boca ou do braço do próprio companheiro da vítima, que instaura em casa a lei da violência física, psicológica, moral, patrimonial, sexual e até mesmo cárcere privado e tráfico.
Enquanto isso, a organização não-governamental Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos (Cohre) revelou, mês passado, uma pesquisa que afirma que uma mulher é atacada a cada 15 segundos no Brasil. Haja delegacia!
Conheci mulheres que fugiram de maridos tiranos __uma delas sob ameaça de ser morta quando ele resolvesse que havia chegado a hora, e outra que só não morreu porque correu mais rápido que seu algoz, que seguia atrás com uma garrafa quebrada na mão. E já vi também algumas que apanharam durante anos, e um dia deram um basta na Delegacia de Mulheres, com hematomas no corpo e no coração. Cheguei a ir com uma delas ao Instituto Médico Legal para o exame de corpo de delito, e ajudei outra a reconstruir um lar com seus filhos. Percebi que o mais difícil, no entanto, é livrar-se da violência psicológica, aquela que amputa braços e pernas da auto-estima e nos torna incapazes de qualquer atitude de auto-preservação.
Mas para quem vive num país livre, há sempre a esperança da fuga e de um futuro melhor, inclusive através das urnas: penso em Zargoona e em Sakineh, minhas amigas espirituais, e lamento que estas possibilidades não existam para elas.
O desespero de Zargonna, fotografado por Harriet Logan
Estupro ainda é coisa de mulher
(Publicado no Jornal do Brasil em 01/03/2011)
Se existe um filme que, aos meus olhos, foi um divisor de águas, é “O Anjo Exterminador”, do espanhol Luis Buñel: família chique recebe convidados chiques para um jantar... a noite passa na maior das educações e mesuras... até que, por algum motivo que o filme não explica, e só a cabeça genial e criativa do diretor poderia bolar, os convidados não conseguem sair da casa.
Pronto! Entra em cena a selvageria.
Anos mais tarde, descobri José Saramago, aquele português que tinha olhos para “estes animaizinhos que somos”, como ele mesmo escreveu, em seu maravilhoso “Ensaio sobre a cegueira”... e mais uma vez detive meu pensamento na selvageria que corre nas nossas veias.
É de impressionar o quanto selvagens podemos ser. O tão pouco que é preciso para que este dom aflore e devaste tudo: do relacionamento de uns, à vida inteira de outros.
E é justamente a selvageria que faz do estupro uma prática mais comum e mais aceitável, nas sociedades atuais, que o canibalismo, o incesto e a pedofilia. Por que será que estes três tabus chocam as pessoas, enquanto que o estupro, um crime, não choca quase ninguém? E é tão comum?
O ataque sexual sofrido pela jornalista sul-africana lara Logan, em praça pública, no Cairo, e as piadas feitas a respeito, por blogueiros americanos, são o reflexo de uma cultura que avança tecnologicamente e mantém vivas as raízes pré-históricas das relações de poder entre os sexos, marcadas pela força e pela submissão.
Na Africa do Sul, campeã mundial de estupros, há até a modalidade “corretiva”, que tem como finalidade “curar” as lésbicas. Lendo sobre o assunto, soube que as meninas sul-africanas têm mais chances de serem estupradas do que alfabetizadas... ao passo que os meninos aprendem que estuprar não é errado e não faz mal a ninguém. Ao que parece, as mulheres, lá, não são ninguém... assim como em tantos outros lugares deste mundo.
No Congo, as mulheres que padecem de abuso sexual apenas uma vez na vida são consideradas sortudas. Nos Estados Unidos, nem as heroínas nas Forças Armadas podem esperar por respeito ou proteção, porque entre os homens que estão ali para proteger o país, há também carrascos sexuais que se divertem com o sexo forçado de suas colegas de trabalho.
No Brasil, onde o estupro é considerado crime hediondo, a realidade é a mesma, e os números sobem no interior do país e nas grandes cidades... ao mesmo tempo que meninas cada vez mais novas __de zero a 12 anos__ lideram o ranking das vítimas em alguns estados, como Minas Gerais. Mas a penalidade, de seis a dez anos em regime fechado, parece não desmotivar os adeptos, e por quê?
Porque a legislação, feita por homens, desconsidera o peso real deste crime: o horror vivido pela mulher, o trauma, a vergonha, a impotência, a submissão, o desrespeito máximo. E a dor que a acompanha vida afora, porque, como é sabido, o estupro não acaba no momento em que o estuprador vai embora.
Parece mais fácil, para as sociedades, entender a brutalidade e o absurdo do canibalismo, do incesto e da pedofilia, adventos horrendos e aos quais qualquer ser humano __ e não apenas as mulheres __ estão sujeitos.
E ainda que a lei de alguns países, como o próprio Brasil, já reconheçam que homens também podem ser estuprados, este continua sendo um crime cujas vítimas são, tipicamente, e em sua maioria, mulheres, inclusive as respeitáveis senhoras casadas, muitas vezes estupradas incessantemente por seus próprios maridos... e meninas indefesas, muitas vezes estupradas por seus pais e irmãos. E o que dizer de maridos que não perdoam suas mulheres por terem sido estupradas, como se a culpa fosse delas, ou como se elas, agora, fossem sujas? Não pasme! Tudo isso é verdade e acontece... nas melhores famílias.
Por tudo isso, e além de ser um problema que, em sua maioria, tem a ver com a mulher, e não raro desestrutura a família, além de condenar um macho... o estupro segue cada vez mais comum no mundo civilizado.
"O Estupro", de Edgar Degas
Se existe um filme que, aos meus olhos, foi um divisor de águas, é “O Anjo Exterminador”, do espanhol Luis Buñel: família chique recebe convidados chiques para um jantar... a noite passa na maior das educações e mesuras... até que, por algum motivo que o filme não explica, e só a cabeça genial e criativa do diretor poderia bolar, os convidados não conseguem sair da casa.
Pronto! Entra em cena a selvageria.
Anos mais tarde, descobri José Saramago, aquele português que tinha olhos para “estes animaizinhos que somos”, como ele mesmo escreveu, em seu maravilhoso “Ensaio sobre a cegueira”... e mais uma vez detive meu pensamento na selvageria que corre nas nossas veias.
É de impressionar o quanto selvagens podemos ser. O tão pouco que é preciso para que este dom aflore e devaste tudo: do relacionamento de uns, à vida inteira de outros.
E é justamente a selvageria que faz do estupro uma prática mais comum e mais aceitável, nas sociedades atuais, que o canibalismo, o incesto e a pedofilia. Por que será que estes três tabus chocam as pessoas, enquanto que o estupro, um crime, não choca quase ninguém? E é tão comum?
O ataque sexual sofrido pela jornalista sul-africana lara Logan, em praça pública, no Cairo, e as piadas feitas a respeito, por blogueiros americanos, são o reflexo de uma cultura que avança tecnologicamente e mantém vivas as raízes pré-históricas das relações de poder entre os sexos, marcadas pela força e pela submissão.
Na Africa do Sul, campeã mundial de estupros, há até a modalidade “corretiva”, que tem como finalidade “curar” as lésbicas. Lendo sobre o assunto, soube que as meninas sul-africanas têm mais chances de serem estupradas do que alfabetizadas... ao passo que os meninos aprendem que estuprar não é errado e não faz mal a ninguém. Ao que parece, as mulheres, lá, não são ninguém... assim como em tantos outros lugares deste mundo.
No Congo, as mulheres que padecem de abuso sexual apenas uma vez na vida são consideradas sortudas. Nos Estados Unidos, nem as heroínas nas Forças Armadas podem esperar por respeito ou proteção, porque entre os homens que estão ali para proteger o país, há também carrascos sexuais que se divertem com o sexo forçado de suas colegas de trabalho.
No Brasil, onde o estupro é considerado crime hediondo, a realidade é a mesma, e os números sobem no interior do país e nas grandes cidades... ao mesmo tempo que meninas cada vez mais novas __de zero a 12 anos__ lideram o ranking das vítimas em alguns estados, como Minas Gerais. Mas a penalidade, de seis a dez anos em regime fechado, parece não desmotivar os adeptos, e por quê?
Porque a legislação, feita por homens, desconsidera o peso real deste crime: o horror vivido pela mulher, o trauma, a vergonha, a impotência, a submissão, o desrespeito máximo. E a dor que a acompanha vida afora, porque, como é sabido, o estupro não acaba no momento em que o estuprador vai embora.
Parece mais fácil, para as sociedades, entender a brutalidade e o absurdo do canibalismo, do incesto e da pedofilia, adventos horrendos e aos quais qualquer ser humano __ e não apenas as mulheres __ estão sujeitos.
E ainda que a lei de alguns países, como o próprio Brasil, já reconheçam que homens também podem ser estuprados, este continua sendo um crime cujas vítimas são, tipicamente, e em sua maioria, mulheres, inclusive as respeitáveis senhoras casadas, muitas vezes estupradas incessantemente por seus próprios maridos... e meninas indefesas, muitas vezes estupradas por seus pais e irmãos. E o que dizer de maridos que não perdoam suas mulheres por terem sido estupradas, como se a culpa fosse delas, ou como se elas, agora, fossem sujas? Não pasme! Tudo isso é verdade e acontece... nas melhores famílias.
Por tudo isso, e além de ser um problema que, em sua maioria, tem a ver com a mulher, e não raro desestrutura a família, além de condenar um macho... o estupro segue cada vez mais comum no mundo civilizado.
"O Estupro", de Edgar Degas
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